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A
sabedoria antiga vê a semana como unidade de tempo relacionada à
tradição religiosa: no Gênesis, temos a descrição da criação
do mundo em sete dias. Os dias da semana recebem o nome de sete
planetas, arquétipos que regem a ordem do Universo.
Se olharmos a Semana Santa como unidade de tempo, percebemos nela um
ciclo que se inicia no Domingo de Ramos e acaba no Sábado de
Aleluia. Esse período compõe uma via sacra, através da qual
podemos trilhar verdades existenciais. Isso significa que, por meio
da reflexão e da busca de imagens do desenvolvimento humano,
podemos encontrar relações diretas entre a semana santa e a nossa
própria vida.
Acompanhemos, então, os seus acontecimentos, segundo o ponto de
vista da antroposofia:
Domingo
de Ramos
Dia do Antigo Sol –
Centro, Eu, Humanização
Entrada
de Jesus Cristo na cidade santa de Jerusalém, montado em um
burrinho branco. O povo da cidade o saúda com ramos de palmeiras.
Cristo
atravessa em silêncio a vibração popular, pois sabe que aquele
entusiasmo logo passará.
Para
Cristo, essa era a transição da antiga exaltação visionária
inconsciente, desencadeada pelos elementos externos da natureza,
para a atitude receptiva, fruto da presença do espírito, do Sol
interior na alma individual e vigorosa.
Segunda-feira
Santa
Dia da Lua – Repetição,
Revitalização, Reflexo
Em
Betfagé, Cristo se aproxima da figueira, local de meditação onde
se atingia um estado inconsciente de re-ligação com o mundo
espiritual.
Lá,
Cristo pronuncia a sentença: “Para todo o sempre, ninguém mais
comerá destes figos”. Com a condenação da figueira, cessa-se o
antigo dom lunar das visões de êxtase, antiga forma de clarividência.
É
fundamental para Cristo que o ser humano trilhe o caminho da
autoconsciência clara e explícita que, embora muitas vezes se
constitua de processo doloroso, levará o homem à liberdade
individual. “Retornará o tempo em que os homens serão
clarividentes como um fato consciente”.
Chegando
mais tarde no templo, Cristo expulsa de lá os vendedores, lembrando
a eles e aos peregrinos que aquele era um lugar sagrado.
Terça-feira
Santa
Dia de Marte – Luta,
Autenticidade, Coragem
Jesus
volta a Jerusalém e se encontra com o povo no templo. Lá é
indagado com questões que são verdadeiras armadilhas, mas as
responde com parábolas, reafirmando a natureza do seu Eu e
colocando seus adversários em seu devido lugar. No final do dia, reúne-se
com os apóstolos no Monte das Oliveiras, onde lhes transmite as
metas que prepararão a humanidade para a sua volta.
Neste
dia, Cristo mostra que a maior batalha é a travada no interior,
entre o medo e a vontade de colocar o Eu. É preciso autenticidade e
coragem para enfrentar as adversidades.
Quarta-feira
Santa
Dia de Mercúrio –
Fluidez, Devoção, Cura
Ao
entardecer em Betânia, Cristo se reúne com seu circula mais íntimo
à mesa, na casa de Simão.
Maria
Madalena unge os pés de Cristo com óleo e os enxuga com seus próprios
cabelos. A postura de Cristo é de disponibilidade.
Esse
gesto desencadeia a revolta que se acumulava na alma inquieta de
Judas, que sai para encontrar os sumo-sacerdotes e concretiza a traição
que o levará ao suicídio.
A
agitação interna de Judas fui para o mundo como revolta.
A
interiorização da força do amor, que antes arrastava Maria
Madalena para o mundano, agora flui para o mundo como devoção.
Cristo
acolhe as forças mercuriais e as transforma em capacidade de cura.
Quinta-feira
Santa
Dia de Júpiter –
Sabedoria, Grandeza
Cai
a noite e Cristo se reúne com os doze apóstolos para celebrar o
Pessach.
Antes
da ceia, Jesus lava os pés de cada um dos apóstolos, num gesto de
amor humilde, singelo e cheio de sabedoria, que é a síntese de
todos os seus ensinamentos: “Amai-vos uns aos outros”.
Segue-se
a ceia do cordeiro, após a qual Cristo toma o pão e o vinho e os
oferece: “Tomai, pois este é o meu corpo e o meu sangue”.
O
antigo sacrifício do cordeiro acontecia como ato de ligar a alma
humana ao mundo espiritual, através do sangue, porém em estado de
êxtase.
Cristo
se torna ele próprio o cordeiro, cessando a reminiscência do
sacrifício de animais puros e trazendo a interiorização do Eu na
alma humana, até o nível do sacrifício, da entrega, da aceitação
do destino. “Eis o Cordeiro de Deus, que assume os pecados do
mundo”.
Sexta-feira
Santa
Dia de Vênus – Paixão,
Amor Universal
Na
madrugada de quinta para sexta-feira, Cristo, ao ser identificado
pelo beijo de Judas, é preso. Ironizado, flagelado, coroado com
espinhos, carrega sua cruz em direção à própria morte. Esse é o
grande símbolo de que além do umbral da morte física, começa uma
vida nova. Tendo se tornado suficientemente firme na sua alma, por
possuir algo imensamente sagrado, suporta todos os sofrimentos e
dores que lhe são impostos. Cristo resgata para o ser humano a sua
herança espiritual. “No
Cristo, torna-se vida a morte” – Rudolf Steiner.
Sábado
de Aleluia
Dia de Saturno –
Profundidade, Consciência, Tempo
O
Cristo desce ao reino dos mortos, pleno da luz solar de sua consciência.
A Terra recebe o corpo e o sangue do Cristo, penetrando nela sua
alma que irá criar um novo centro luminoso. “O que é aqui refletido como Luz do Cristo é o que o Cristo denomina
Espírito Santo (...) A Terra começa a criar a sua volta um anel
espiritual que mais tarde se tornará uma espécie de planeta ao seu
redor. Estamos diante do ponto de partida de um Novo Sol em formação.”
– Rudolf Steiner
Síntese
do texto de Edna Andrade, elaborado a partir de:
O
Evangelho de São João. Rudolf
Steiner, Antroposófica.
Os
acontecimentos da Semana Santa.
Emil Bock, Editora Nova Jornal
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